
No interior do Paraná, o cultivo da erva-mate vai muito além da produção agrícola. Em muitas propriedades, ele representa uma tradição passada de pais para filhos, uma fonte de renda para a agricultura familiar e uma forma de conservar a Floresta com Araucária em pé. É para fortalecer esse modelo que o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) entregou uma emenda parlamentar de R$ 400 mil ao Centro de Desenvolvimento e Educação dos Sistemas Tradicionais de Erva-Mate (CEDErva), recurso que já foi pago integralmente pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).
O investimento permitirá a implantação de seis Unidades de Referência Agroecológica (URAs) em propriedades de agricultores familiares que cultivam a erva-mate sombreada, sistema reconhecido em outubro de 2025 pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) como Sistema Importante do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM). O reconhecimento internacional colocou o Paraná em evidência ao valorizar uma forma de produção que alia geração de renda, preservação ambiental e conhecimento tradicional.
Diferentemente do que o nome pode sugerir, as URAs não são prédios ou estruturas físicas. Elas funcionam dentro das próprias propriedades rurais, transformando agricultores que já dominam esse sistema produtivo em referências para outros produtores. Durante 18 meses, essas famílias receberão acompanhamento técnico contínuo, elaboração de diagnósticos, planos de manejo, inventários da biodiversidade e implantação de áreas experimentais, criando uma rede permanente de aprendizado e troca de experiências.
Para Zeca Dirceu, investir nesse trabalho significa fortalecer quem produz alimentos e, ao mesmo tempo, preservar uma riqueza ambiental e cultural do Paraná.
"O agricultor familiar precisa de políticas públicas que cheguem até a propriedade e façam diferença na vida de quem produz. Essa emenda garante assistência técnica, fortalece um sistema reconhecido mundialmente e ajuda a manter vivas tradições construídas por gerações de famílias paranaenses. É um investimento que une produção, renda, preservação ambiental e valorização do conhecimento do nosso povo", destacou o deputado.
Segundo a presidente do CEDErva, Laureen Silva, as URAs representam uma mudança importante na forma como a assistência técnica chega ao campo, reconhecendo que o conhecimento acumulado pelos agricultores é parte fundamental do processo.
"O sistema de erva-mate sombreada foi construído e mantido por gerações de famílias que aprenderam a manejar a floresta observando-a. A função da equipe técnica não é substituir esse saber, mas qualificá-lo, sistematizá-lo e devolvê-lo fortalecido. O agricultor é o protagonista desse processo", afirma.
As propriedades escolhidas passam a funcionar como espaços vivos de demonstração. É nelas que outros agricultores poderão conhecer práticas de manejo, discutir soluções para desafios da produção e compartilhar experiências. O modelo nasceu justamente de uma demanda apresentada pelas próprias famílias durante a elaboração do plano de conservação do SIPAM, quando pediram mais oportunidades para aprender entre si e garantir que esse conhecimento seja transmitido às novas gerações.
URAs também são ciência
A iniciativa também aproxima a pesquisa científica da realidade das propriedades rurais. Os dados levantados nas URAs — como informações sobre manejo, produtividade e biodiversidade — serão utilizados em estudos desenvolvidos em parceria com universidades e instituições de pesquisa. Depois de analisados, esses resultados retornam aos agricultores na forma de orientações técnicas, novas práticas de manejo e informações que fortalecem o acesso a políticas públicas e mercados diferenciados.
Atualmente, cerca de 400 famílias agricultoras, distribuídas em 11 municípios paranaenses e duas Terras Indígenas, integram a rede do sistema tradicional de erva-mate sombreada. A implantação das URAs formaliza e amplia um trabalho que já vinha sendo construído há mais de seis anos, agora com presença técnica permanente nos territórios.
Para Zeca Dirceu, esse tipo de investimento representa uma política pública que olha para quem vive no campo sem desconsiderar a preservação ambiental.
"O Paraná tem agricultores que produzem com qualidade, preservam nossas florestas e carregam conhecimentos que não podem se perder. Nosso compromisso é garantir que essas famílias tenham apoio para continuar produzindo, inovando e vivendo com dignidade no campo. É assim que construímos desenvolvimento sustentável de verdade, valorizando quem faz o Paraná crescer todos os dias", concluiu.